InícioGestão de FreteMês do Caminhoneiro no Mobi Podcast: os bastidores de quem influencia na...

Mês do Caminhoneiro no Mobi Podcast: os bastidores de quem influencia na estrada

Resumo do episódio: no quinto episódio do Mobi Podcast, feito para celebrar o Mês do Caminhoneiro, o host Araílton Pimentel recebe a empresária e ex-caminhoneira Paulla Demeneghi e o motorista bitrenzeiro autônomo Rogério Coruja para uma conversa sobre a rotina de quem vive na estrada. Entre mitos, verdades e histórias pessoais, os três passam pela transformação do pagamento de frete (da carta-frete de papel ao pagamento eletrônico), pela chegada do CIOT e do pedágio digital, pelo piso mínimo do frete e pelo desafio de atrair novas gerações e mais mulheres para o transporte de cargas.

Assista ao episódio completo no YouTube: Mobi Podcast EP #05, Mês do Caminhoneiro

Show notes

Convidados

  • Paulla Demeneghi, empresária, palestrante e ex-caminhoneira profissional; host do Seja Águia Cast.
  • Rogério Coruja, motorista bitrenzeiro autônomo e influenciador digital.
  • Apresentação: Araílton Pimentel (Edenred Mobilidade).

Principais aprendizados

  • A carta-frete de papel e o pagamento em dinheiro vivo expunham o motorista a ágio abusivo nos postos e a risco de assalto na estrada; o pagamento eletrônico de frete resolveu os dois problemas ao mesmo tempo.
  • A tabela de piso mínimo de frete não é um teto, é um valor mínimo garantido por lei; o motorista pode negociar acima dela, mas não pode receber abaixo.
  • A digitalização do pedágio (tag) tirou do motorista a obrigação de carregar dinheiro da concessionária, reduzindo risco e desgaste do caminhão em frenagens desnecessárias.
  • O maior mito da profissão, segundo os convidados, é associar o caminhoneiro a comportamento de risco ou marginalidade; a rotina real é marcada por agenda, prazos de carregamento e horários de descanso regulados.
  • Mão de obra no setor é também um desafio de acolhimento: programas de formação de jovens motoristas e a inclusão de mulheres na profissão aparecem como caminhos para o setor, com ganhos relatados de organização e cuidado com o veículo.
  • Saúde mental do motorista é apontada como ponto de atenção da gestão de frotas: diferentemente de outras profissões de risco, o caminhoneiro segue em estado de alerta mesmo fora do horário de direção, por dormir na própria rota.

Capítulos

  • [00:00] Abertura e apresentação dos convidados
  • [01:34] Como surgiu a carreira de influenciador na estrada?
  • [17:12] Quais mitos e verdades marcam a profissão de caminhoneiro?
  • [28:15] O que a tecnologia mudou no dia a dia do transporte?
  • [29:56] Por que o pagamento digital substituiu a carta-frete e o cheque?
  • [35:52] Como o piso mínimo de frete passou a ser fiscalizado digitalmente?
  • [39:40] Como atrair novas gerações e mais mulheres para o transporte?
  • [48:24] Por que a saúde mental do motorista precisa entrar na gestão de frotas?
  • [53:04] Mensagem de encerramento para o Mês do Caminhoneiro

Transcrição (editada para leitura)

A transcrição abaixo foi editada para leitura, com cortes de repetições e marcas de oralidade, mantendo o sentido e a atribuição de fala de cada participante.

[00:00] Abertura e apresentação dos convidados

Araílton Pimentel: Olá, pessoal! Eu sou o Araílton Pimentel, mais conhecido como Ara. Estou no segmento de transporte há cerca de 20 anos e apresento mais um Mobi Podcast da Edenred Mobilidade. Para a conversa de hoje, vou pedir para a Paulla se apresentar.

Paulla Demeneghi: Olá, pessoal, tudo bem com vocês? Primeiramente, muito obrigada pelo convite, é uma honra estar aqui. A gente sempre está aprendendo, porque o nosso transporte muda a todo tempo e são desafios diferentes todos os dias. Eu sou a Paulla Demeneghi, fui caminhoneira profissional. Hoje atuo mais na parte de treinamentos e desenvolvimento de pessoas, e também sou host do meu podcast, o Seja Águia Cast.

Araílton Pimentel: Boa, Paulla, obrigado! E aqui agora o Coruja, que tem muitos quilômetros de história. Pode se apresentar, por gentileza.

Rogério Coruja: Fala, galera! Eu sou o Rogério Coruja, caminhoneiro, sou lá do Paraná, viajo pro Brasil inteiro. Tô bem feliz de estar aqui para compartilhar um pouco da nossa história.

[01:34] Como surgiu a carreira de influenciador na estrada?

Araílton Pimentel: Quero saber de onde veio a ideia de fazer podcast, fazer vídeos para divulgar o dia a dia, o trabalho, e passar conhecimento para o público.

Paulla Demeneghi: Comecei no transporte em 2017. Trabalhei num truck center para aprender de caminhões, porque quando decidi ser motorista, eu nunca tinha entrado num caminhão. Aprendi um pouco de mecânica, aprendi a manobrar, e foi aí que nasceu a Paulla motorista. Consegui uma oportunidade na Dinon Transportes, no Rio Grande do Sul, e comecei a fazer viagens com caminhões novos, modelos que os outros motoristas tinham receio de testar. Nessa época, por volta de 2018 e 2019, surgiu a tecnologia do fitboard, e eu comecei a divulgar os resultados de economia de combustível e de condução. Foi natural, a partir daí, virar influenciadora.

Rogério Coruja: A minha família toda é envolvida com caminhão, com agricultura, então desde pequeno eu já tinha esse convívio. Com 18 anos já fui pra estrada. Depois de um acidente, saí do trecho, fiz faculdade, trabalhei com telefonia, e isso me trouxe proximidade com tecnologia. Quando voltei pra estrada, os amigos perguntavam como eu tinha trocado o escritório pela estrada, e eu mandava foto e vídeo do dia a dia, porque já tinha essa facilidade com celular. A tecnologia também ajudava porque na época pouca gente sabia usar GPS, então o pessoal me procurava para tirar dúvida. Foi crescendo um público em cima disso, e eu gosto de ajudar quem está começando na profissão.

[17:12] Quais mitos e verdades marcam a profissão de caminhoneiro?

Rogério Coruja: Um mito forte é achar que o caminhoneiro tem família espalhada por todo canto, tipo novela. Na verdade, hoje a rotina é muito corrida, cheia de agendamento e compromisso: carrego, tenho prazo para chegar, se não chego pago multa. Não sobra esse tempo todo que o imaginário sugere.

Paulla Demeneghi: Um mito que eu quero derrubar é a ideia de que o caminhoneiro é vagabundo ou bandido, que só faz besteira na estrada. Isso é errado. A internet dá muito ibope para as coisas ruins, e um ou outro que faz coisa errada mancha toda a categoria. A gente precisa valorizar quem faz o trabalho correto todos os dias, enfrentando dificuldades reais, como a falta de estrutura para descanso e higiene.

Paulla Demeneghi: Uma verdade importante é sobre remuneração e carreira: hoje é possível, sim, um jovem entrar no transporte e construir uma carreira de sucesso, inclusive pagando os próprios estudos enquanto trabalha, porque a remuneração inicial já é competitiva com a de muitas profissões que exigem faculdade.

Rogério Coruja: Sobre remuneração, o motorista carreteiro hoje fica entre R$ 7.000 e R$ 10.000, e quem é comissionado pode passar disso na safra. É uma remuneração boa se comparada ao mercado geral, mas exige organização financeira para se sustentar.

Araílton Pimentel: É verdade que um caminhoneiro não aceita que o outro ultrapasse ele na rodovia?

Rogério Coruja: Isso é mito. Pode existir uma desavença pontual no trânsito, como em qualquer motorista, mas entre caminhoneiros não existe essa disputa generalizada. O problema é que um vídeo de briga viraliza rápido, e isso reforça um estereótipo que não representa a maioria.

[28:15] O que a tecnologia mudou no dia a dia do transporte?

Paulla Demeneghi: Mesmo quem não teve acesso a estudo, hoje consegue usar inteligência artificial como um assistente, inclusive financeiro, para gerir o próprio negócio dentro do caminhão.

Rogério Coruja: A gente saiu muito do analógico para o digital nos últimos anos, e isso vale demais para o pagamento do frete.

[29:56] Por que o pagamento digital substituiu a carta-frete e o cheque?

Rogério Coruja: Sempre fui defensor do pagamento digital de frete. O motorista mais antigo estava acostumado a pegar carta-frete, que é ilegal, ou receber cheque. Quando você chega no posto para trocar a carta-frete, o dono não vai fazer favor: ele exige que você abasteça 40% ou 50% do valor ali, e o preço do combustível já é outro. Isso tira dinheiro do bolso do caminhoneiro. Com o pagamento digital, eu chego e abasteço onde eu quiser, no posto com melhor preço e melhor atendimento.

Rogério Coruja: O risco de andar com dinheiro também é real. Em Paranaguá, por exemplo, não é raro ouvir de assaltos: o motorista vai almoçar, está escuro, alguém aparece com uma faca e leva a carteira, com o dinheiro do frete e do pedágio junto. No modelo digital, se eu perco o cartão, eu ligo, bloqueio, e sigo viagem no dia seguinte com outro. No modelo antigo, perder aquele dinheiro significava não poder viajar.

Rogério Coruja: Hoje eu administro caminhão com motorista, e toda a movimentação é digital. O frete cai numa conta, o pedágio vai direto para a tag, e o motorista sai com cartão para imprevistos, como furar um pneu na estrada. Antes, era preciso entregar um maço de dinheiro na mão para cada viagem, sem controle nenhum de para onde aquilo ia.

Abastecimento, manutenção, pedágio e frete. Tudo em um só lugar.

[35:52] Como o piso mínimo de frete passou a ser fiscalizado digitalmente?

Rogério Coruja: A tabela do pedágio obrigatório, implementada há cerca de um ano e meio, foi um bom exemplo: sem a tag, o caminhão simplesmente não carrega, e isso acabou com a informalidade de quem tentava negociar por fora para economizar.

Paulla Demeneghi: O mesmo vale para o valor do frete: com tudo digital, fica registrado todo o histórico de onde o dinheiro foi gasto, o que ajuda o motorista a fazer o próprio planejamento financeiro em vez de perder o controle ao longo do mês.

Rogério Coruja: O pessoal confunde a tabela do piso mínimo com um teto. Não é teto, é o mínimo. Hoje, se a empresa não pagar o valor da tabela, ela está descumprindo a lei, e isso mudou bastante a margem de negociação do motorista para melhor.

[39:40] Como atrair novas gerações e mais mulheres para o transporte?

Paulla Demeneghi: Não vejo falta de mão de obra, vejo falta de instrução e de oportunidade. Muita gente sonha em ser motorista e não sabe por onde começar. As lideranças do setor precisam treinar pessoas e olhar para quem deseja a chance, como acontece hoje com programas voltados a jovens aprendizes no transporte.

Paulla Demeneghi: Sobre as mulheres no transporte: fui embaixadora do movimento A Voz Delas, da primeira turma de mulheres motoristas formada pela Mercedes-Benz, em 2021. Muitas dessas mulheres encontraram na profissão uma chance de recomeço depois de situações difíceis. E times de gestão que incluem mulheres relatam ganhos de cuidado com o veículo e de acolhimento com a equipe de motoristas.

[48:24] Por que a saúde mental do motorista precisa entrar na gestão de frotas?

Paulla Demeneghi: Um paralelo que eu uso é com a profissão de policial: ele também trabalha sob risco, mas ao final do plantão, tira a farda e desliga. O caminhoneiro não consegue desligar da mesma forma, porque mesmo dormindo no caminhão, ele segue em estado de alerta. As empresas precisam olhar para esse lado, porque um profissional emocionalmente cuidado entrega melhores resultados.

Rogério Coruja: Empatia é a palavra que resume o que o setor precisa: se colocar no lugar do motorista, entender que decisões de custo, como não oferecer estrutura de apoio na estrada para economizar centavos no combustível, acabam custando caro em segurança e bem-estar mais à frente.

[53:04] Mensagem de encerramento para o Mês do Caminhoneiro

Rogério Coruja: Quero agradecer a galera que sempre está em contato com a gente pelas redes sociais e dar parabéns para todos os parceiros e caminhoneiros da estrada. Parabéns a todos os caminhoneiros.

Paulla Demeneghi: Quero dizer para vocês que são muito admirados por muitas pessoas, mesmo quando parece que ninguém está olhando. Foquem nas coisas boas, sejam gratos pelas oportunidades e saibam que não estão sozinhos nessa estrada.

Artigos Relacionados

Mais populares